Resumo:O dólar americano (USD) amanhece nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, em um patamar que muitos analistas não previam tão cedo. A moeda abriu o dia cotada a R$ 5,17 no mercado comercial brasileiro, operando próxima da estabilidade, mas ainda refletindo a forte depreciação acumulada nas últimas semanas. Este movimento consolida o dólar no menor nível desde 28 de maio de 2024, quando havia fechado a R$ 5,1534. Em menos de dois meses, a divisa norte-americana já acumula uma desvalorização de 5,83% frente ao real, um ritmo impressionante que supera a metade de toda a queda registrada ao longo de 2025. Este fenômeno não é isolado, mas sim o resultado de uma confluência de fatores domésticos e internacionais que estão reescrevendo as regras do jogo cambial e desafiando as projeções mais conservadoras para 2026.

Data: 24 de Fevereiro de 2026
O gatilho mais recente para a fraqueza do dólar tem origem em Washington. Na última semana, a Suprema Corte dos Estados Unidos proferiu uma decisão histórica, derrubando as tarifas de importação impostas pelo presidente Donald Trump. A corte considerou que o uso da Lei de Poderes de Emergência para justificar as tarifas foi um erro, representando uma derrota contundente para o governo. O impacto foi imediato: o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas fortes, chegou a inverter o sinal e passou a cair, aprofundando as perdas da moeda americana.
A confusão em torno da política comercial dos EUA não parou por aí. Nesta terça-feira, entrou em vigor a nova tarifa de importação imposta pelos Estados Unidos, mas com uma reviravolta: a taxa foi fixada em 10%, inferior aos 15% que haviam sido prometidos por Trump em seu último anúncio público. O governo não ofereceu explicações claras sobre a redução, alimentando ainda mais a percepção de incerteza e desorganização na política comercial americana. Segundo o Financial Times, a promessa de aumento para 15% pode vir mais tarde, mas, por enquanto, o mercado respira aliviado e continua a vender dólares.
A queda do dólar frente ao real não é um fenômeno puramente local, mas parte de um movimento global de enfraquecimento da moeda americana. Como explica Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners, há uma crescente “revisão da confiança histórica dos investidores na moeda americana e nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos”. A combinação de incerteza quanto à trajetória da inflação, o crescente endividamento do país e as políticas econômicas erráticas de Trump têm levado a uma fuga de capital estrangeiro da América, contribuindo para a desvalorização do dólar em escala global.
Do lado doméstico, o principal vetor de força do real é o diferencial de juros. Com a Selic em 15% ao ano, o Brasil oferece um retorno extremamente atraente para investidores estrangeiros em comparação com os juros americanos. Isso favorece operações de carry trade, onde investidores captam recursos em moedas com juros baixos (como o iene ou o dólar) para aplicar em países com taxas mais altas, como o Brasil. Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, ressalta que, mesmo com a expectativa de queda da Selic ao longo do ano, o diferencial de juros em relação aos EUA deve permanecer próximo de 10% – um valor “ainda alto, bastante atrativo” que favorece o ingresso de fluxo estrangeiro.
Nesta terça-feira, 24 de fevereiro, o dólar comercial opera em leve alta de 0,01%, cotado a R$ 5,169, após fechar o pregão anterior a R$ 5,1685. Apesar da estabilidade do dia, a trajetória recente é claramente descendente. A moeda chegou a atingir R$ 5,18 na última sexta-feira, refletindo a decisão da Suprema Corte, e agora testa novos patamares.
As projeções para o dólar em 2026 são alvo de intenso debate. O Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, aponta para uma valorização da moeda americana ao longo do ano, com a expectativa de fechamento em R$ 5,50. No entanto, especialistas divergem frontalmente dessa projeção. O professor Mauricio Weiss, do PPECO da UFRGS, ressalta a dificuldade de prever o câmbio dada a multiplicidade de fatores envolvidos, mas entende que o cenário atual aponta para uma “manutenção ou apreciação do real frente ao dólar”, contrariando a previsão oficial.
Apesar da força recente do real, analistas alertam para fatores de risco que podem reverter ou, no mínimo, aumentar a volatilidade cambial nos próximos meses. Dois eventos se destacam: a troca na presidência do Federal Reserve (Fed) em maio e as eleições brasileiras em outubro.
A nomeação de Kevin Warsh para suceder Jerome Powell no comando do Fed adiciona uma camada de incerteza. A possibilidade de interferência de Trump no banco central americano e as dúvidas sobre a orientação futura da política monetária dos EUA são motivos de preocupação. Como observa Weiss, “quando há um aumento de incerteza global, mesmo quando o problema é nos Estados Unidos, acaba que as pessoas, sem saber o que fazer, fogem para o dólar porque é a moeda-chave do sistema financeiro internacional”. Este movimento de fuga para a segurança (flight to quality) poderia, paradoxalmente, fortalecer o dólar justamente quando seus problemas domésticos o enfraquecem.
No cenário doméstico, as eleições presidenciais de outubro são o grande foco de atenção. Historicamente, anos eleitorais trazem maior volatilidade cambial. Alexandre Viotto, da EQI Investimentos, acredita que a percepção de que a disputa está em aberto, com a possibilidade de uma terceira via e maior competitividade de nomes da direita, tem alimentado expectativas de uma agenda mais pró-mercado, contribuindo para a valorização do real. No entanto, ele pondera que o cenário pode mudar rapidamente: “Se houver polarização e um discurso mais à esquerda, com promessas de aumento de gastos, pode haver estresse no mercado e a moeda voltar à faixa de R$ 5,50 ou até acima”.
Diante da queda expressiva da moeda americana, a pergunta que surge naturalmente é: é hora de comprar dólar? A resposta, como quase tudo no mercado financeiro, depende do objetivo de cada investidor.
Para quem está planejando uma viagem internacional e precisa da moeda física, o momento pode ser especialmente oportuno. Cristiane Quartaroli, do Ouribank, avalia que “é um bom momento agora porque pode ser que vejamos aceleração na taxa de câmbio quando chegarmos mais próximo do período eleitoral”. Comprar dólar hoje, a R$ 5,17, pode significar uma economia significativa em relação a um cenário futuro de real desvalorizado.
Para quem pensa em investimentos no exterior, a perspectiva é de longo prazo. Alexandre Viotto, da EQI, afirma que não existe “momento ideal” para dolarizar investimentos. “Trata-se de uma estratégia de longo prazo, que deve fazer parte de uma alocação estrutural de patrimônio, independentemente do patamar da moeda”. Ainda assim, ele reconhece que a recente queda torna o preço mais atrativo para quem pretende iniciar ou aumentar sua exposição internacional.
A decisão de comprar dólar deve levar em conta, também, os fundamentos de longo prazo da economia brasileira e americana. O Brasil oferece um diferencial de juros atraente, mas enfrenta um ano eleitoral que pode trazer volatilidade. Os EUA, por sua vez, lidam com incertezas políticas e fiscais, mas ainda são a maior economia do mundo e sua moeda, o principal ativo de reserva global. Para o investidor, a diversificação permanece a palavra de ordem. Ter uma parcela do patrimônio em moeda forte, como o dólar, é uma forma de proteção (hedge) contra os riscos inerentes a qualquer economia emergente, independentemente do momento de entrada.
A cotação do dólar a R$ 5,17 nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, é o reflexo mais visível de um momento único na economia global. A combinação de fraqueza estrutural do dólar no exterior, impulsionada por decisões judiciais contundentes e uma política comercial errática, com a força do real, ancorada em um diferencial de juros ainda colossal, criou uma tempestade perfeita para a desvalorização da moeda americana no Brasil.
As projeções do Boletim Focus, que apontam para um dólar a R$ 5,50 no fim do ano, parecem cada vez mais desafiadas pela realidade dos mercados. No entanto, como alertam os especialistas, o caminho até outubro será longo e cheio de potenciais obstáculos. A sucessão no Fed e, principalmente, as eleições brasileiras, têm o poder de reverter rapidamente o cenário atual.
Para o investidor e o cidadão comum, a mensagem é clara: o dólar barato de hoje é uma oportunidade, mas também um sinal de alerta. Oportunidade para viajar, para comprar ativos externos e para diversificar. Sinal de alerta para os riscos que se avizinham e para a necessidade de um planejamento financeiro que leve em conta a volatilidade como regra, e não como exceção. O dólar pode ter caído, mas a história nos ensina que, em tempos de incerteza, sua resiliência como moeda-chave do sistema financeiro global nunca deve ser subestimada.
