Resumo:Em um dia marcado por profunda incerteza global, o ouro consolida seu papel como o porto seguro supremo, rompendo barreiras psicológicas e estabelecendo novos recordes históricos. Nesta segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, o preço da onça-troy do metal amarelo atingiu a impressionante marca de US$ 4.600 durante a sessão asiática, um marco sem precedentes que sinaliza o auge da aversão ao risco nos mercados financeiros.

Publicado em 12/01/2026
Em um dia marcado por profunda incerteza global, o ouro consolida seu papel como o porto seguro supremo, rompendo barreiras psicológicas e estabelecendo novos recordes históricos. Nesta segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, o preço da onça-troy do metal amarelo atingiu a impressionante marca de US$ 4.600 durante a sessão asiática, um marco sem precedentes que sinaliza o auge da aversão ao risco nos mercados financeiros. Essa trajetória ascendente não é um fenômeno isolado; é o epicentro de um movimento generalizado de alta nos metais preciosos, impulsionado por uma combinação explosiva de tensões geopolíticas escaladas, expectativas de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) e uma busca desesperada por ativos reais em um cenário de fragilidade institucional. Enquanto em dólar o ouro escreve uma nova página em seu livro de recordes, em real brasileiro seu valor também atinge patamares estratosféricos, refletindo tanto a força internacional do commodity quanto a pressão cambial local. Este artigo mergulha nas causas, projeções e implicações deste rally histórico, analisando o metal tanto em termos internacionais quanto em seu impacto direto na economia brasileira.
O combustível imediato para a disparada do ouro vem das crescentes tensões no Oriente Médio, com o Irã no centro da tempestade. Relatos indicam que a internet no país está cortada há mais de três dias, com confrontos de rua e um número significativo de vítimas, em um cenário que sugere que o regime pode estar em sérios apuros e à beira de ser derrubado. A postura do governo dos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, adiciona combustível ao fogo. Trump não apenas ameaçou intervir ao lado dos insurgentes, como também propôs dobrar os gastos com defesa norte-americanos. Em retaliação, o Irã ameaçou interesses dos EUA e de Israel na região.
Os mercados estão precificando uma probabilidade de cerca de 50% de que um ataque militar americano ou israelense ao Irã ocorra até o final de março. Esta escalada geopolítica, que envolve diretamente potências como EUA, China e Rússia, cria um nível de incerteza sistêmica que faz os investidores correrem para a segurança. Em tempos de potencial conflito armado de grande escala e desestabilização de uma região produtora crucial de petróleo, o ouro, com seu histórico milenar como reserva de valor, se torna o ativo de eleição. Esta dinâmica é um clássico dos mercados: a demanda por hedge de segurança supera qualquer análise técnica de sobrecompra, impulsionando os preços para novos patamares.
A análise técnica corrobora e dá sustentação ao movimento fundamental. O gráfico diário do ouro spot (XAU) apresenta uma estrutura extremamente positiva. Após uma ruptão anterior, o metal encontrou um suporte excelente na região de US$ 4.260, de onde partiu para a atual onda de alta. A ação do preço está completando a formação de um novo padrão de cunha de expansão ascendente (ascending broadening wedge), uma configuração que, apesar de poder indicar volatilidade, historicamente sinaliza movimentos de alta expressivos em sua conclusão, sugerindo que níveis muito mais elevados são possíveis ao longo de 2026.
Em um zoom no gráfico de 4 horas, a robustez fica ainda mais evidente. A correção a partir da resistência inicial em US$ 4.550 encontrou compradores agressivos no suporte de US$ 4.260, formando um poderoso padrão de inversão “cabeça e ombros invertido”. Este padrão é um dos mais confiáveis indicadores de reversão de tendência de baixa para alta, e sua confirmação projeta mais ganhos no curto prazo. A estratégia de muitos traders de tendência agora é clara: aguardar um fechamento firme acima de US$ 4.600 no final da sessão de Nova York para adicionar novas posições compradas, apostando na continuação do momentum.
O rally não se limita ao ouro. Todo o complexo de metais preciosos e industriais está em tendência de alta sincronizada, um sinal de que os ventos macroeconômicos e geopolíticos são favoráveis a toda a classe de ativos.
Além da geopolítica, um pilar fundamental sustenta a alta do ouro: a política monetária do Federal Reserve. O fraco relatório de empregos (Non-Farm Payrolls) divulgado recentemente nos EUA reacendeu as expectativas de que o ciclo de cortes de juros pode ser mais agressivo do que se antecipava. Juros mais baixos reduzem o custo de oportunidade de segurar ouro (um ativo que não paga renda), tornando-o mais atrativo em comparação com títulos de dívida. A perspectiva de um afrouxamento quantitativo (QE) ou cortes mais profundos enfraquece o valor da moeda fiduciária (o dólar) no longo prazo, e os investidores se adiantam, comprando ouro como proteção contra essa desvalorização monetária.
O índice DXY (U.S. Dollar Index), que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas, reflete essa ambiguidade. Ele se recuperou do suporte em 97.50 mas encontra forte resistência próximo à Média Móvel de 200 dias, consolidando-se em uma faixa apertada. Essa indecisão do dólar cria um ambiente perfeito para o ouro brilhar: a moeda americana não está forte o suficiente para pressionar os commodities, mas a incerteza global é mais que suficiente para impulsionar a demanda por segurança. O foco agora se volta ao índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA, a ser divulgado na terça-feira. Um dado de inflação mais brando pode ser o gatilho final para confirmar os cortes do Fed e enviar o ouro a patamares ainda mais elevados.
Para o investidor brasileiro, o fenômeno ganha uma dimensão ainda mais impactante. O ouro em reais atinge valores estratosféricos não apenas pela alta internacional, mas também pelo câmbio historicamente elevado. Com a cotação do dólar comercial operando em patamares próximos a R$ 5,35, o valor de uma onça de ouro se traduz em um montante colossal em moeda local.
Considerando o pico do dia de US$ 4.600 e uma taxa de câmbio de R$ 5,35, o valor teórico da onça atingiria aproximadamente R$ 24.610. No entanto, o preço de venda ao investidor final no Brasil, que inclui prêmios, custos e impostos, é ainda maior. Dados do texto de referência indicam que 1 grama de ouro estava valendo R$ 779,17. Para contextualizar, uma onça-troy equivale a aproximadamente 31,1 gramas. Portanto, o valor implícito da onça no mercado brasileiro seria de cerca de R$ 24.230, um alinhamento próximo ao cálculo teórico e um número que ilustra o custo proibitivo do metal para a população.
Este cenário coloca o ouro como um hedge duplamente poderoso no Brasil: protege contra a instabilidade global e contra a desvalorização cambial do real. Para aqueles que conseguiram se expor ao ativo antes desta disparada, os ganhos são monumentais. Para o mercado como um todo, reflete a pressão inflacionária importada, já que produtos e insumos com preços atrelados ao dólar e a commodities globais ficam mais caros, um efeito que eventualmente chega ao consumidor final.
O dia 12 de janeiro de 2026 ficará registrado como o dia em que o ouro atingiu US$ 4.600, mas seu significado vai muito além de um número em um gráfico. Este recorde é um termômetro da ansiedade global, medindo o calor da crise geopolítica no Irã, a desconfiança na política monetária futura e a corrida por ativos tangíveis em um sistema financeiro percebido como frágil. A conjugação de uma crise institucional no Fed (com a investigação contra Powell) e a ameaça de conflito militar criou uma tempestade perfeita para os metais preciosos.
As projeções técnicas, com seus padrões de cunha ascendente e cabeça e ombros invertido, sugerem que o caminho de menor resistência continua sendo para cima, especialmente se o CPI dos EUA vier mais fraco. O alvo de US$ 4.900, derivado de medidas técnicas anteriores, agora parece uma possibilidade dentro do horizonte de 2026.
Para o Brasil, a alta do ouro em reais é um lembrete severo dos desafios macroeconômicos. Enquanto investidores sofisticados podem ver oportunidades de hedge, para a economia real significa pressão de custos e inflação importada. O ouro, em sua trajetória celestial, deixa uma sombra longa sobre os planos de controle de preços e poder de compra. Nos próximos dias, todos os olhos estarão voltados para o CPI americano e para os desdobramentos no Golfo Pérsico. Enquanto as notícias forem de tensão e afrouxamento monetário, o brilho do ouro dificilmente se apagará. O rei dos metais reafirma, em alto e bom som, sua coroa em tempos de tribulação.
