Resumo:Em um movimento expressivo que contrasta com a tensão dos dias anteriores, a cotação do Dólar Americano (USD) frente ao Real Brasileiro (BRL) registrou uma forte queda nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026. Após operar em alta na terça-feira, pressionado pelo medo de uma guerra comercial, a moeda norte-americana deu uma guinada e passou a negociar em níveis próximos a R$ 5,32, acumulando uma desvalorização de mais de 1% em apenas uma sessão. Este recuo não é um fenômeno isolado no Brasil; ele representa a ponta de um iceberg de um repentino movimento de rotação de capital global (global rotation). Enquanto investidores se afastam de ativos de risco nos Estados Unidos, alarmados com a política externa agressiva do governo Trump, eles buscam oportunidades em mercados emergentes com fundamentos atrativos, e o Brasil emerge como um dos destinos preferenciais. Este artigo desvenda os fatores internacionais e domésticos que convergiram para essa virada cambial abrupta.

Publicado em 21/01/2026
Em um movimento expressivo que contrasta com a tensão dos dias anteriores, a cotação do Dólar Americano (USD) frente ao Real Brasileiro (BRL) registrou uma forte queda nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026. Após operar em alta na terça-feira, pressionado pelo medo de uma guerra comercial, a moeda norte-americana deu uma guinada e passou a negociar em níveis próximos a R$ 5,32, acumulando uma desvalorização de mais de 1% em apenas uma sessão. Este recuo não é um fenômeno isolado no Brasil; ele representa a ponta de um iceberg de um repentino movimento de rotação de capital global (global rotation). Enquanto investidores se afastam de ativos de risco nos Estados Unidos, alarmados com a política externa agressiva do governo Trump, eles buscam oportunidades em mercados emergentes com fundamentos atrativos, e o Brasil emerge como um dos destinos preferenciais. Este artigo desvenda os fatores internacionais e domésticos que convergiram para essa virada cambial abrupta.
Os números desta quarta-feira pintam um quadro claro de venda do dólar e apreciação do real. Por volta das 13h45, o dólar à vista operava com uma queda expressiva de 1,08%, sendo negociado a R$ 5,323 na venda e R$ 5,322 na compra. No mercado de derivativos, o dólar futuro para fevereiro, o contrato mais líquido na B3, acompanhava o movimento, recuando 1,04% para R$ 5,336. Esta queda ocorre após o fechamento de terça-feira, quando a moeda havia terminado em alta de 0,29%, cotando R$ 5,3802. A magnitude do movimento, superando a marca de 1%, sinaliza um fluxo financeiro consistente e direcionado, indo muito além de um simples ajuste técnico. A operação de swap cambial realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) no fim da manhã, destinada à rolagem de vencimentos, atuou em um ambiente já dominado por oferta de dólares, ajudando a consolidar a tendência de baixa sem gerar atritos no mercado.
O principal catalisador da mudança de humor global veio do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Em seu discurso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma declaração crucial ao afirmar que “não pretende usar a força” para obter o controle da Groenlândia. Apesar de ter reiterado seu desejo por “negociações imediatas” e criticado a decisão histórica de devolver o território à Dinamarca, a retirada explícita da ameaça militar (“As pessoas pensaram que eu usaria a força, mas eu não preciso... não usarei a força”) foi interpretada pelos mercados como um sinal de moderação tática. Embora a ameaça tarifária de 10% sobre países europeus permaneça, a remoção do componente de força bruta do discurso amenizou o pior dos cenários temidos, aquele que poderia desencadear uma crise de segurança generalizada.
Essa sutil, porém significativa, mudança de tom foi suficiente para acelerar um movimento que já estava em gestação: o afastamento de investidores institucionais de ativos norte-americanos. Como destacou Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, “Muitos que investiram no S&P e no Nasdaq estão se afastando desses índices das Bolsas de Nova York, devido à agressividade de Trump com os parceiros da OTAN”. Esta “trade Venda da América” (Sell America), que começou como uma fuga para a segurança absoluta, agora evolui para uma busca por retorno (search for yield) fora do território americano. O capital que sai de ações e títulos dos EUA precisa de um novo destino, e os mercados emergentes com taxas de juros reais atrativas, como o Brasil, tornam-se opções naturais.
A decisão de onde alocar esse capital em movimento não é aleatória. O Brasil ofereceu, nesta quarta-feira, um conjunto convincente de atrativos. O primeiro e mais direto é o fluxo de investimentos estrangeiros para a Bolsa Brasileira. O índice Ibovespa renovou máximas histórias, aproximando-se dos 170 mil pontos, um sinal claro de entrada de recursos externos comprando ações locais. Para comprar ativos no Brasil, investidores estrangeiros precisam vender dólares e comprar reais, aumentando a oferta da moeda americana no mercado interno e, consequentemente, pressionando sua cotação para baixo.
O segundo atrativo é o carry trade. Com os juros brasileiros ainda em patamar elevado em termos reais, investidores podem captar recursos a juros baixos no exterior (como nos EUA ou Japão), converter em reais e aplicar em títulos públicos brasileiros, lucrando com o diferencial de taxas. Este movimento também gera entrada de dólares no país e venda no mercado à vista para conversão. Marcio Riauba, da StoneX, apontou que a baixa do dólar e dos juros futuros ocorre com “movimento de investidores fugindo dos ativos americanos e beneficiados pelo carry trade no Brasil”. A queda nos rendimentos dos Treasuries americanos (títulos do Tesouro dos EUA) nesta sessão, mencionada pelo diretor da FB Capital, aliviou a pressão global por dólar e facilitou esse fluxo.
Um terço fator, de natureza doméstica, foi a repercussão de uma nova pesquisa eleitoral Atlas. A pesquisa indicou uma maior competitividade do cenário político, mostrando que o senador Flávio Bolsonaro aparece como um concorrente mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma eventual disputa. Para o mercado, uma eleição percebida como mais competitiva e disputada tende a ser vista como um fator de moderação de riscos extremos de política econômica, aumentando a previsibilidade. Como observou Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, essa percepção contribuiu para o movimento de baixa do dólar e alta dos mercados. O cancelamento de uma visita do governador Tarcísio de Freitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro também foi monitorado como um sinal do complexo tabuleiro eleitoral.
Em meio a esse ambiente favorável de fluxos, o Banco Central agiu de forma pontual e técnica, realizando seu leilão de swaps para rolagem. Mais relevante para a solidez do sistema, porém, foi a decisão do BC de decretar a liquidação extrajudicial da Will Financeira. A medida, justificada pelo “comprometimento da sua situação econômico-financeira” e seu vínculo com o Banco Master (já em liquidação), foi encarada pelo mercado como uma ação de limpeza e fortalecimento do sistema financeiro. Ao agir de forma resoluta em uma instituição problemática, o BC reforça a credibilidade da regulação e reduz o risco sistêmico, um ponto positivo que, embora não seja o motor principal do dia, cria um pano de fundo mais seguro para a entrada de capital estrangeiro.
A pressão vendedora sobre o dólar não se limitou ao par USD/BRL. Globalmente, o Índice Dólar (DXY), que mede a força da moeda americana frente a uma cesta que inclui Euro, Iene e Libra, continuou sua trajetória de baixa, cedendo terreno e operando próximo a 98,51 pontos. O dólar também perdeu valor frente a outras moedas de mercados emergentes. Este é um sinal importante: o movimento de hoje não foi uma fuga do real para outros ativos, mas sim uma desvalorização ampla do dólar no contexto de realocação de portfólio global. A declaração de Trump em Davos serviu como o empurrão final para que o capital que estava parado em cash ou em ativos de segurança ultra-líquidos dos EUA começasse a buscar oportunidades de retorno em outras praças.
A forte queda do dólar nesta quarta-feira é um exemplo vívido de como os fluxos de capital global podem alterar rapidamente a direção do câmbio em economias emergentes. O Brasil soube capitalizar, por um dia, o êxodo de recursos dos Estados Unidos, atraindo-os com uma combinação de juros atrativos, um mercado acionário em alta e um cenário político que pareceu se tornar mais previsível, ainda que competitivo. No entanto, é crucial manter os pés no chão. O cenário geopolítico continua extremamente volátil. As tarifas contra a Europa ainda estão sobre a mesa e podem ser ativadas a partir de 1º de fevereiro. A nomeação do novo chair do Federal Reserve por Trump, um tema que ele mencionou em Davos sem anunciar, é outro evento de alto risco que pode remexer os mercados.
Portanto, a queda para R$ 5,32 pode representar uma correção saudável após a alta induzida pelo pânico, mas não necessariamente o início de uma tendência estrutural de apreciação do real. A aversão ao risco global diminuiu levemente hoje, mas está longe de ter desaparecido. Para investidores e empresas, a lição é a importância de se proteger contra a volatilidade cambial, pois os ventos podem mudar novamente com um único tweet ou declaração inesperada de Davos ou Washington. A janela de oportunidade está aberta, mas sob a constante ameaça de fechar-se abruptamente.