Resumo:A cotação do dólar iniciou a semana de 05 de janeiro de 2026 em um terreno movediço, refletindo as ondas de choque que se espalharam pelos mercados globais após um evento geopolítico de grande magnitude. A moeda norte-americana abriu a sessão contra o real com um viés de alta, operando em torno de R$ 5,428 na venda à vista, uma valorização modesta de 0,09%, mas significativa no contexto de um feriado prolongado e da súbita incerteza global. Este movimento, embora aparentemente contido, carrega em seu núcleo a narrativa de um mundo que se vê novamente confrontado com a intervenção militar direta de uma superpotência. O gatilho foi a operação dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, um evento que ressoa como um trovão na já tensa paisagem da América Latina e reacende a demanda por ativos de refúgio, entre os quais o dólar americano ocupa lugar de destaque.

Publicado em 05/01/2026
A cotação do dólar iniciou a semana de 05 de janeiro de 2026 em um terreno movediço, refletindo as ondas de choque que se espalharam pelos mercados globais após um evento geopolítico de grande magnitude. A moeda norte-americana abriu a sessão contra o real com um viés de alta, operando em torno de R$ 5,428 na venda à vista, uma valorização modesta de 0,09%, mas significativa no contexto de um feriado prolongado e da súbita incerteza global. Este movimento, embora aparentemente contido, carrega em seu núcleo a narrativa de um mundo que se vê novamente confrontado com a intervenção militar direta de uma superpotência. O gatilho foi a operação dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, um evento que ressoa como um trovão na já tensa paisagem da América Latina e reacende a demanda por ativos de refúgio, entre os quais o dólar americano ocupa lugar de destaque.
Na madrugada de sábado, as forças dos Estados Unidos executaram uma ação que mudou instantaneamente o cálculo de risco para os mercados emergentes, em especial os da região. A prisão de Nicolás Maduro e sua transferência para solo norte-americano para enfrentar acusações criminais é um evento sem precedentes recentes. Imediatamente, as declarações do presidente Donald Trump amplificaram a tensão, ao ameaçar novos ataques caso a Venezuela não cooperasse com os objetivos estadunidenses para sua indústria petrolífera e ao estender ameaças militares à Colômbia e ao México. Este cenário criou um choque de risco geopolítico regional, fazendo com que investidores recalibrem a precificação de ativos latino-americanos. Em momentos de aversão ao risco aguda, o fluxo de capital tende a fugir de moedas de mercados emergentes, como o real, em direção à segurança percebida do dólar e do Tesouro americano. Embora a alta do dólar frente ao real tenha sido inicialmente modesta, analistas alertam que pode ser cedo demais para declarar essa alta como duradoura, pois o mercado ainda digere as implicações de longo prazo.
O impacto não se limitou ao câmbio. O evento serviu como um teste de estresse para a aversão ao risco global. Curiosamente, enquanto moedas emergentes se enfraqueceram, os principais índices acionários asiáticos registraram ganhos, focando em dados econômicos locais positivos, como a estabilização da atividade manufatureira no Japão. Isso sugere uma avaliação inicial de que o episódio venezuelano pode ser contido regionalmente, sem desencadear uma crise sistêmica imediata. No entanto, para o real brasileiro, a proximidade geográfica e os laços comerciais regionais tornam o país mais sensível a esses ventos de instabilidade. A simples ameaça de um conflito mais amplo ou de uma desestabilização prolongada na fronteira norte é suficiente para inibir investimentos estrangeiros diretos e pressionar a moeda local.
No campo da análise técnica, os contratos de dólar futuro negociados na B3 fornecem um mapa claro dos níveis de batalha entre compradores e vendedores. Após o fechamento do último pregão relevante em 02 de janeiro, com ajuste em R$ 5,460, o mercado se encaminhou para a sessão de 05/01 em um estado de equilíbrio tenso. Os analistas técnicos, utilizando ferramentas como Ondas de Elliott e retrações de Fibonacci, apontam áreas-chave que definirão a tendência no curto prazo. O dólar futuro para janeiro, o contrato mais líquido, operava na manhã desta segunda-feira em torno de R$ 5,4675, tentando consolidar-se acima de um nível importante.
As projeções para os próximos movimentos são bem definidas:
Esses níveis não são aleatórios; eles representam zonas de consolidação histórica, pontos de máximas e mínimas anteriores e retrações matemáticas do último movimento significativo do par. O fato de o dólar estar testando a região superior desse range após o evento geopolítico indica que os compradores (bulls) estão tentando usar o sentimento de risco para impulsionar uma nova onda de valorização. A confirmação ou rejeção desses níveis nos próximos dias será crucial para determinar se a alta do dólar é um movimento passageiro ou o início de uma nova leg de apreciação.
Para além do choque externo, a dinâmica do dólar é profundamente influenciada pelo cenário macroeconômico doméstico e pelas expectativas sobre a política monetária global. No front local, o Banco Central do Brasil (BC) manteve sua presença ativa no mercado de câmbio, realizando um leilão de swap cambial de 50 mil contratos às 11h30 para rolagem de vencimentos. Essa ferramenta é usada para prover hedge aos investidores e suavizar a volatilidade excessiva, sinalizando que a autoridade monetária está atenta aos movimentos.
O mais recente Boletim Focus, pesquisa semanal com analistas de mercado divulgada pelo BC, trouxe um sinal misto para as expectativas de inflação. Enquanto a projeção para o IPCA de 2025 recuou pela oitava semana seguida, para 4,31%, a estimativa para 2026 teve uma leve alta de 4,05% para 4,06%. Este movimento sutil, mas na direção oposta, sugere que o mercado ainda vê pressões inflacionárias residuais no horizonte mais distante, o que pode limitar o espaço para cortes agressivos de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e, consequentemente, influenciar o fluxo de capitais e a atratividade do real.
No entanto, o fator externo indiscutivelmente mais importante para o dólar global nesta semana será o relatório mensal de emprego dos EUA (NFP), previsto para sexta-feira. Dados fortes do mercado de trabalho americano podem reduzir as expectativas de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) em 2026, fortalecendo ainda mais o dólar em escala global e exercendo pressão adicional sobre o real e outras moedas emergentes. Em contrapartida, números fracos reacenderiam a narrativa de afrouxamento monetário, potencialmente aliviando a força do dólar. Portanto, a alta geopolítica inicial enfrentará um teste de fogo fundamental com dados econômicos concretos no fim da semana.
Um dólar comercial negociando persistentemente acima de R$ 5,40 tem implicações profundas e diretas para a economia brasileira e o bolso do consumidor. A alta do dólar atua como um vetor de inflação importada, pois encarece produtos, componentes e commodities cotados em moeda estrangeira. Itens essenciais da rotina dos brasileiros, desde a gasolina (cujo preço é amarrado ao petróleo internacional) até o pão e o café (que dependem de insumos e fertilizantes importados), sentem o impacto do câmbio desfavorável. Conforme destacam especialistas, o efeito é espalhado: primeiro, os custos de produção sobem; depois, as empresas são obrigadas a repassar parte desse aumento aos preços finais; e, finalmente, o consumidor enfrenta uma inflação mais persistente.
O economista André Braz, da FGV Ibre, resume o mecanismo: “É uma questão que pode ganhar cada vez mais impulso à medida que o câmbio vem batendo novos recordes e se consolidando em patamar cada vez mais alto. À medida que o tempo passa, as transações comerciais vão acontecendo com uma nova taxa de câmbio e isso vai sendo repassado gradualmente para os preços.” Além dos bens de consumo, um dólar valorizado dificulta viagens internacionais, torna a importação de bens de capital mais cara para as empresas e pode desacelerar investimentos que dependam de tecnologia ou equipamentos estrangeiros.
Olhando para o futuro, as projeções para o dólar em 2026 são construídas sobre um pano de fundo de normalização de patamares elevados. Após um 2024 que viu o real se desvalorizar fortemente, com o dólar atingindo um record histórico de R$ 6,26 em dezembro, a maioria dos analistas acredita que a moeda deve se estabilizar em um patamar estruturalmente mais alto. A tendência média de consenso aponta para uma cotação ao redor de R$ 5,80 ao longo de 2026, o que ainda representa um valor significativamente elevado em comparação com anos anteriores.
Essa visão incorpora a noção de que muitos dos fatores que empurraram o dólar para cima persistem: o cauteloso ciclo de cortes de juros do BC brasileiro em relação ao ciclo do Fed, riscos fiscais domésticos, um ambiente global ainda avesso ao risco em mercados emergentes e, como visto agora, a incerteza geopolítica regional. O evento na Venezuela serve como um lembrete poderoso de que choques externos podem surgir subitamente, adicionando uma prêmio de risco extra à moeda brasileira. A capacidade do real de resistir a essas pressões dependerá crucialmente da continuidade da disciplina fiscal, do controle inflacionário e de reformas que aumentem a produtividade e a atratividade do Brasil para investimentos de longo prazo.
A sessão de 05 de janeiro de 2026 ilustra perfeitamente a dicotomia que governa a cotação do dólar: ela é um barômetro que reage tanto a choques agudos de risco geopolítico quanto à lenta digestão dos fundamentos macroeconômicos. A prisão de Maduro forneceu o catalisador para uma abertura em alta, testando resistências técnicas importantes. No entanto, a sustentação dessa movimentação está longe de ser garantida. Ela será posta à prova pela reação do Banco Central, pelas expectativas de inflação locais e, principalmente, pelos dados de emprego dos EUA no fim da semana, que redefinirão as apostas sobre os juros globais.
Para o Brasil, um dólar estruturalmente mais forte já é uma realidade incorporada nas projeções, com impactos tangíveis na inflação e no custo de vida. Eventos como o da Venezuela funcionam como aceleradores pontuais dessa tendência, reforçando a necessidade de políticas econômicas sólidas que fortaleçam a resiliência do real. No curto prazo, os olhos dos traders estão fixados nos níveis de R$ 5,468 (resistência) e R$ 5,443 (suporte) no futuro. No médio prazo, a trajetória será moldada pela interação entre a busca global por segurança e a capacidade do Brasil de oferecer retornos atrativos e estáveis em um mundo ainda cheio de surpresas. Em um cenário de incerteza elevada, a única certeza é a volatilidade, e navegar por ela exige atenção redobrada a ambos os mapas: o da geopolítica e o da economia.
