Resumo:Às 12h01, a moeda norte-americana à vista operava em nítida queda de 0,69%, sendo negociada a R$ 5,369 na venda, um recuo significativo que reflete uma recalibragem nas expectativas de risco. Este movimento corrobora a tese de que, embora eventos geopolíticos de grande magnitude possam causar choques de curto prazo, a trajetória de médio prazo das moedas é, em última análise, ditada pelos fundamentos macroeconômicos e pelo fluxo global de capitais.

Publicado em 06/01/2026
A cotação do dólar contra o real apresentou um movimento de clara descompressão nesta terça-feira, 06 de janeiro de 2026, em um cenário marcado pelo retorno do apetite por risco aos mercados globais. Após a volatilidade inicial provocada pelo impacto do ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, os investidores começam a processar que os temores de uma escalada geopolítica descontrolada na região estão a se dissipar. Às 12h01, a moeda norte-americana à vista operava em nítida queda de 0,69%, sendo negociada a R$ 5,369 na venda, um recuo significativo que reflete uma recalibragem nas expectativas de risco. Este movimento corrobora a tese de que, embora eventos geopolíticos de grande magnitude possam causar choques de curto prazo, a trajetória de médio prazo das moedas é, em última análise, ditada pelos fundamentos macroeconômicos e pelo fluxo global de capitais. O real se beneficia neste momento de um ambiente externo mais benigno e de uma agenda doméstica relativamente esvaziada, que transfere o foco para os dados econômicos dos Estados Unidos.
O episódio venezuelano serviu como um teste de estresse para o mercado de câmbio brasileiro. Na segunda-feira, o dólar chegou a ser impulsionado pela incerteza aguda, com investidores ponderando os possíveis desdobramentos econômicos e políticos de uma intervenção militar tão próxima. No entanto, ao final do dia, a moeda já havia perdido força, fechando em baixa de 0,35% a R$ 5,4051. Esta rápida reversão sinalizou que o mercado não enxergou, pelo menos por ora, um risco de contágio sistêmico para o Brasil ou uma desestabilização prolongada que justificasse uma fuga massiva de capital. A declaração do presidente Donald Trump de que os Estados Unidos não estão “em guerra com a Venezuela” ajudou a acalmar os ânimos. Conforme os temores imediatos se dissipam, a lógica de mercado retoma seu curso: com o apetite por risco em recuperação, o fluxo de capital tende a buscar ativos de maior rendimento em mercados emergentes, como o Brasil, em detrimento da segurança absoluta do dólar. Este é um clássico movimento de “risk-on”, onde moedas consideradas mais arriscadas se valorizam.
Com o ruído geopolítico atenuado, a atenção dos investidores retorna com força total para a agenda macroeconômica, que nesta semana é dominada pelos Estados Unidos. A expectativa é pela divulgação de uma série de dados robustos, com destaque absoluto para os números do mercado de trabalho, que serão cruciais para moldar as expectativas sobre a política monetária do Federal Reserve (Fed). Qualquer sinal de resiliência no emprego e nos salários pode adiar ou reduzir a magnitude das expectativas de corte de juros em 2026, o que tradicionalmente fortalece o dólar globalmente. Por outro lado, dados mais fracos reforçariam a narrativa de afrouxamento monetário, exercendo pressão de baixa sobre a moeda americana. Esta pendulação define o humor do mercado global e, por tabela, influencia o par USD/BRL.
Internamente, o discurso do membro do conselho do Fed, Stephen Miran, ecoou a visão de parte do banco central. Miran afirmou que o Fed precisa “cortar as taxas de juros agressivamente este ano para manter a economia em movimento”, classificando a política atual como “claramente restritiva”. Este tipo de comentário “dovish” (acomodatício) contribui para um ambiente de menor apoio ao dólar no longo prazo. Enquanto isso, no Brasil, a agenda do dia é leve, com o principal destaque sendo a divulgação da balança comercial de dezembro. As estimativas do mercado apontam para um superávit de US$ 7,1 bilhões, um número robusto que, se confirmado, poderia oferecer suporte técnico ao real, demonstrando a solidez externa da economia. O Banco Central do Brasil (BC) manteve sua presença, realizando mais um leilão de swap cambial de 50 mil contratos, uma operação de rotina para gerenciar a volatilidade e oferecer hedge ao mercado, mas que também sinaliza vigilância.
No campo da análise técnica, o dólar se encontra em uma zona de consolidação e definição de tendência após o ruído inicial. A perda do patamar de R$ 5,40 com certa convicção nesta terça-feira é um primeiro sinal de fraqueza momentânea. Analistas técnicos observam os níveis-chave para os próximos movimentos:
O contrato de dólar futuro mais líquido, para fevereiro, operava com ligeira queda na B3, em torno de R$ 5,442, mostrando que o mercado a termo também precifica um cenário de moderação. O comportamento do índice do dólar (DXY), que mede a força da moeda contra uma cesta de outras divisas, subia apenas 0,12%, indicando uma lateralização com viés fraco no cenário internacional, o que não oferece vento contrário forte para o real.
Um fator importante, embora indireto, para a fortaleza do real é o desempenho robusto do mercado de commodities. Conforme destacado em análises paralelas, metais preciosos e industriais estão em forte alta. O ouro se mantém próximo de máximas históricas, e o cobre atingiu recordes. Este rally generalizado em matérias-primas é geralmente benéfico para moedas de países exportadores, como o Brasil. Ainda que o petróleo tenha mostrado um comportamento mais oscilante diante da perspectiva de aumento futuro da oferta venezuelana, a força em outros fronts das commodities ajuda a melhorar os termos de troca do país e apoia a conta corrente. Este ambiente contribui para um cenário externo mais favorável, reduzindo uma das fontes de pressão sobre o câmbio.
Apesar da agenda econômica leve, o cenário doméstico não está isento de ruídos que podem influenciar a percepção de risco local. O ambiente político mostra sinais de tensão. O presidente Lula sinalizou a intenção de vetar o projeto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de Janeiro, reacendendo debates divisivos na semana do terceiro aniversário dos eventos. Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) marca o evento, e há pedidos de investigação na Câmara contra parlamentares da oposição. Este tipo de conflito político institucional, ainda que pontual, adiciona uma camada de incerteza que pode, em momentos de fragilidade maior, pesar sobre o real.
Outro ponto de atenção é o desdobramento do caso Banco Master. A determinação do Tribunal de Contas da União (TCU) por uma inspeção in loco no Banco Central para apurar o processo de liquidação do banco foi vista pelo mercado como atípica e levantou questionamentos sobre segurança jurídica e os limites de atuação das instituições. Episódios que geram dúvidas sobre a estabilidade do sistema financeiro ou a autonomia regulatória do BC são sempre recebidos com cautela pelos investidores, podendo gerar aversão ao risco doméstico.
As projeções para o dólar no curto prazo estão intrinsicamente ligadas ao resultado dos dados econômicos dos EUA desta semana. Um cenário de dados fortes pode reverter parte da queda atual, trazendo o dólar de volta para perto de R$ 5,40 ou acima. Um cenário de dados fracos, por outro lado, pode aprofundar a desvalorização da moeda americana, permitindo ao real buscar patamares mais próximos de R$ 5,30. No médio prazo, a tendência de consenso para 2026, conforme destacado em projeções anteriores, ainda aponta para uma estabilização em um patamar estruturalmente mais alto em torno de R$ 5,80, incorporando riscos fiscais domésticos e um cenário global ainda cauteloso com emergentes.
No entanto, a rápida dissipação do risco venezuelano é um lembrete positivo da resiliência do real. Ela sugere que, na ausência de um choque doméstico de grande magnitude, a moeda brasileira tem condições de se beneficiar de um ambiente global de “risk-on” e de commodidades firmes. A atuação vigilante do Banco Central via swaps e a expectativa de um superávit comercial robusto são fundamentos sólidos que atuam como âncora.
A sessão de 06 de janeiro ilustra a natureza transitória dos choques geopolíticos no mercado de câmbio. O real demonstrou capacidade de absorver o impacto inicial e se recuperar à medida que a poeira assentava e a lógica dos fundamentos retornava. A queda do dólar para abaixo de R$ 5,37 é um sinal técnico importante desta mudança de humor. No entanto, esta serenidade é temporária e está condicionada ao fluxo de dados internacionais.
Os próximos dias serão decisivos. O foco total estará em Wall Street e nas mãos do Federal Reserve. Enquanto isso, o mercado doméstico precisará monitorar se os ruídos políticos e regulatórios permanecem como pano de fundo ou se ganham força suficiente para reacender a aversão ao risco local. Por enquanto, o real navega em águas mais calmas, aproveitando uma janela de oportunidade criada pela dissipação do medo e pelo retorno da busca por rendimento aos mercados emergentes. A lição do dia é clara: em um mundo volátil, a capacidade de recuperação rápida é um ativo tão valioso quanto os próprios fundamentos econômicos.
